Binóculo


por Renan Elias.

SAC - serviço de aborrecimento ao cidadão.

 

Recentemente indicamos o filho de um velho conhecido para assumir a função de vigia em uma empresa da nossa clientela. Passados mais de uma semana, fomos informados pelo chefe do setor de recursos humanos que o nosso indicado não havia entregue a sua CTPS para as devidas providências.

Procurei o rapaz e o mesmo me disse que havia preenchido a primeira carteira e, por isso, buscava tirar a segunda via para entregar na firma, porém, não estava conseguindo ser atendido no setor do MTPS no SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão) de Teixeira de Freitas. Mesmo comparecendo todo dia naquele local para enfrentar uma longa fila, não conseguia obter as primeiras cinquenta senhas, por isso, retornava dia após dia, na esperança de ser atendido. Por fim, no quarto dia, após chegar duas horas da madrugada, conseguiu uma senha e obteve o tão esperado atendimento.

Por sorte, conseguiu, com minha inteferência junto à empresa, garantir o seu emprego, mas, certamente, perderia a vaga se não estivesse recomendado por minha pessoa.

Com este exemplo, despertei para um fato negativo que passa despercebido no nosso dia a dia, mas que atinge milhares de cidadãos em nossa região. Teixeira de Freitas, por ser um centro regional, recebeu o chamado SAC, uma central de atendimento ao cidadão, localizado no Shoping Center, onde vários serviços de caráter social são prestados à população de todo extremo sul baiano. Ali as pessoas tiram ou retiram as carteiras de identidade, cartas de motorista, CTPS, certificados de reservista, títulos de eleitor, reconhecem firma, autenticam cópias, prestam queixa no Juizado Especial, pagam taxas, etc. .O SAC tem uma importância muito grande para a população da região, em razão da relevância dos serviços ali centralizados, o que torna as pessoas, de um modo em geral, dependentes daquela grande repartição pública.

A realidade é que, todo cidadão, um dia ou outro, terá, obrigatoriamente, que procurar o SAC para ser atendido. E ai começa o sofrimento.


Grande parte dos serviços ali prestados são por meios de senhas, o que limita o atendimento a um certo número de usuários, descartando os demais.
Este critério é injusto porque obriga o cidadão a voltar várias vezes ao SAC, para disputar uma senha, sendo obrigado, por isso, a madrugar na fila e esperar horas a fio para ser finalmente atendido. Um atendimento que lhe causa humilhação e aborrecimento, porque, terá, dependendo da fila, que ficar sem dormir, comer e beber, por horas, saindo do local, cansado e estressado.

O que mais lamentamos, é que a maioria desta clientela que busca os serviços do SAC, diariamente, são pessoas pobres e de pouca instrução. São idosos, jovens da periferia, moradores da zona rural e outras categorias humildes, na sua grande parte aposentados, trabalhadores ou desempregados.

A ironia desta história é que este centro de serviços público, que deveria atender ao cidadão, acaba por aborrecer o cidadão, porque atende mau, de maneira desorganizada e contra producente.

O mais irônico ainda, é que a grande vítima deste descasso é o cidadão pobre, porque os de classe média e alta pouco necessitam destes serviços, e quando precisam, obtêm mais facilidades pelo conhecimento e influência, na maioria das vezes políticas.É é o famoso “jeitinho”, que o pobre não tem acesso.

E aí a pergunta. De quem é a culpa? É do administrador público, que não está nem aí para a população, só sabe falar, falar e falar. Nunca age de forma eficaz e inteligente. Vive da demagogia que ainda funciona neste pobre país.

O trabalhador,que deveria ser o centro das atenções dos atuais governantes, que se dizem politicos populares e progressistas, acabam sendo as maiores vítimas dos serviços essenciais, por falta de planejamento, estratégia, e, sobretudo, vontade política dos administradores, de um modo em geral.

Investir na informatização, organização e otimização dos serviços públicos, deveria ser um prioridade dos governos em todos os níveis. Servir bem, de forma rápida e educada ao cidadão, deveria ser uma meta, uma prioridade dos governantes brasileiros. Dinheiro é que não falta.

Quando se trata de arrecadar, o governo é eficiente e rápido. A Receita Federal e as Secretarias da Fazenda dos estados e municípios são os orgãos mais aparelhados, organizados e eficazes que existem nas administrações públicas, porque não estender esta agilidade aos serviços essenciais?

Lamentavelmente, os governantes só sabem falar na mídia que está tudo ótimo, que está tudo bem. Não são eles que amanhecem nas filas dos SAC’s, hospitais, postos de saúde, Previdência Social, delegacias, IML, DETRAN’s e outras repartições mais.

Se sentissem na pele, pelo menos por um dia, a realidade enfrentada pelo cidadão pobre neste país, talvez, quem sabe, deixassem a demagogia de lado e buscassem facilitar a vida da população. Este gesto valeria mais que mil palavras. É o que o cidadão precisa.

Até a próxima.

 

 

Você está lendo uma coluna escrita por: Renan Elias
06/09/2009

 

 


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