Para começar, essa história é verdadeira. Se não for em pequeninos detalhes, é verdadeira na essência. Todo causo que a gente conta é um pouco mentiroso, mas não chega a ser uma inverossímil história de pescador. O caso é de circo e de leão. Não sei se a gente pode chamar de circo um reles picadeiro cercado de panos multicoloridos, sem lona por cima, de altura apenas suficiente para encobrir a visão dos não pagantes do lado de fora. Demarcada a área com algumas estacas, esticado o pano, estava pronto o palco do espetáculo. Dois palhaços mambembes, uma bailarina de meias furadas em dezenas de lugares, uma equilibrista, o apresentador, dois cachorros e uma galinha. A dona do circo se chamava Marisa Uchoa e veio à rádio pedir divulgação. Na época esse escriba era diretor da Caraípe e assistiu, atônito, d. Marisa afirmar que eu seria o Sílvio Santos que abriria para ela As Portas da Esperança. Era um circo assim, digamos, rude. Ah, ia me esquecendo do principal personagem do espetáculo: o leão. Para começar, o leão não tinha nome. Aliás, também não tinha carne, só ossos. Aliás, também não tinha dentes. Era um leão, mas a gente só sabia disso com muita boa vontade. Lembro-me de Fernando Moulin querendo comprar o tal leão, não sei para qual finalidade. Aliás, ele e Dona Mariza assistiram a uma função do circo lá no Uldurico Pinto e voltaram roxos de rir e de pena. À noite, o picadeiro (pois era móvel, por causa do reduzido tamanho) se instalou na Praça da Telebahia. A dona, não se sabe como, conseguiu com um fazendeiro eitudo um boizinho barroso para participar. A idéia era de uma briga entre o leão e o boizinho, onde a direção do circo esperava que o felino saísse vitorioso. Parece que o fazendeiro olhou bem e não viu possibilidade do leão vencer e cedeu o boi. Bichinho bonito, arisco, cheio de vontades. Colocado na arena, ficou ali, escarvando o chão. O leão foi colocado primeiro e logo se encostou em um pau que segurava o pano. Encostou e ficou quieto, tipo o cara que quer que o mundo acabe em melado para ele morrer doce. Idoso, triste, faminto e sofrido, o leão estava com muito mais medo do que outra coisa. O boizinho, não. Bem tratado, com chifres pequenos mas ameaçadores, estava pronto para a briga. Ficou no meio da pista, vai lá, vem cá, olhando o leão de soslaio, com cara de poucos amigos. Só que o leão não tresandava nem trescaldava: não saía do lugar. Um ajudante de picadeiro, querendo ver o tufo, chegou por trás do leão e com um gancho espetou o bicho no traseiro. O pobre “Rei dos Animais”, assim espicaçado, saiu do lugar e foi para o meio da arena. O boizinho, sentindo a movimentação leonina, partiu para cima do bicho. Aí é que aconteceu a melódia. Como o leão não teve forças para correr, o boizinho o pegou com os chifres pelo meio da barriga e jogou o bicho pra cima. Em um rodopio espetacular, o leão deu uma cambalhota e foi cair na arquibancada. Há momentos em que a dignidade, por mais abalada, desperta. A do leão despertou. Foi cair no meio do povo e soltou aquele urro sem pai. O povo, pouco mas atento, com medo do portentoso rugido, saiu em debandada, gente caindo, mulher gritando, uma esbórnia. No meio da confusão, o filho mais novo do vereador Gessé Inácio quebrou a perna. Depois do rugido, o leão se aquietou e foi levado por D. Mariza para junto dos cachorros e da galinha. O povo foi embora entre a risadaria depois do susto, o fazendeiro recolheu o boizinho e as Portas da Esperança se fecharam para a pobre Uchoa.
Conto esse caso, mas de ouvir de outras bocas: lamento a ausência e a considero a maior falha da minha vida de repórter.
Você está lendo uma coluna escrita por: Ramiro Guedes
07/09/2009